Nos últimos anos, o rock evoluiu na igreja e ganhou adeptos de todas as idades. Atualmente, bandas como Oficina G3, Resgate e Fruto Sagrado já têm público consolidado. Mas nem sempre ouvir rock quer dizer entendê-lo. Para Flávio Lages Rodrigues, esta diferença é essencial para tornar o estilo uma marca na vida da Igreja.

Autor do livo O Rock na evangelização, recentemente lançado pela MK Editora, Flávio se autodenomina um underground, e com razão. Entretanto, este cabeludo, tatuado e baterista da banda de metal extremo Post Trevor, de Belo Horizonte (MG), não se relaciona com a visão muitas vezes preconceituosa dos evangélicos sobre os roqueiros. Seu estilo de vida fala por si e seus frutos testemunham de sua fé em Cristo Jesus. Em entrevista ao Portal ELNET, Flávio conta o segredo para alcançar as tribos urbanas.

PERGUNTA: Na sua visão, que fator contribuiu para a mudança da visão de que o rock era coisa do diabo?

Flávio: As pessoas estão descobrindo que não é o terno que vai pregar, é o ser humano que tem falhas como qualquer outro. O que diferencia é ver a vida da pessoa com Deus. Ele (o roqueiro) é uma pessoa que está ali para ministrar, para servir. Se precisar limpar o chão, ele vai fazer isso. Isso muda todo o contexto… um ministro que existe para servir a igreja, a sociedade e a comunidade. É a levar a mensagem para fora das quatro paredes, estar próximo dos marginalizados, levando o ministério integral,que é para o corpo,a alma e o espírito.

PERGUNTA: Hoje há uma maior penetração do rock. Ainda existem barreiras que precisam ser quebradas?

Flávio: A primeira questão é o visual, que é muito arrojado. Todo de preto, cabelo grande, piercing… isso de certa forma agride o outro, que é o diferente se não vemos a Palavra como aquela que unifica a cultura. E a tribo (grupo de pessoas que se identificam através de comportamentos afins) é uma cultura pequena dentro de outra maior. A gente tem uma maneira diferente de falar, de se vestir, é tudo diferente. Ontem, por exemplo, estava indo para uma sessão de fisioterapia no Hospital das Clínicas da UFMG fui abordado por um guarda municipal que desconfiava que eu estava com drogas. Eu me identifiquei, mas não adiantou e ele me levou para a delegacia. Depois, o guarda se justificou, dizendo: “diga-me com quem andas e te direi quem és”.

PERGUNTA: E o caso das tribos? Como apontar uma visão de servidão a Cristo quando estão acostumados com um sistema de contracultura, de rebeldia?

Flávio: Mostro que Jesus foi o maior contracultural que existiu. Ele e João Batista. Então, foram pessoas à margem da sociedade. Eu mostro que, da mesma forma, eles se rebelam contra as falhas da sociedade de seu tempo. Jesus fez a mesma coisa e chegou ao extremo de morrer como um maldito por nós. O parâmetro de contracultura é o próprio Cristo. Fiz uma matéria na Revista Cristã mostrando Jesus como o modelo underground a ser seguido. Costumo dizer que o Espírito de Deus toca onde Ele quer, portanto é possível servi-Lo curtindo o rock.

PERGUNTA: Sobre seu livro pela MK, do que se trata?

Flávio: O conteúdo do livro mostra a música como um elemento da cultura que a gente pode usar, aliada à revelação de Deus, para pregar a mensagem através da Palavra cantada. A gente usa a música como um elemento da atualidade ao levar o Evangelho às pessoas que estão à margem da sociedade: as tribos urbanas.

PERGUNTA: No livro você cita Lutero como um profeta de seu tempo. Hoje, como os pastores deveriam se posicionar para alcançar o homem pós-moderno?

Flávio: A pós-modernidade tem um problema: o homem não acredita mais no absoluto. Acreditava-se no absoluto e ele fazia barbaridades como ainda se vê em alguns casos. Este homem vê o outro como nada, é o etnocentrismo. As pessoas não acreditam mais em poderes absolutos e menos ainda em Deus. Por sua vez, a Igreja não conseguiu trabalhar com a cultura, que precisa ser vista à luz da Bíblia, mostrando como Jesus trazia para o centro as pessoas discriminadas. Lutero conseguiu ver isso. Ele poderia ter se adaptado às questões eclesiásticas, mas queria uma reforma e foi ao extremo. Foi um contracultural de seu tempo, mostrando para a elite de que o parâmetro de Deus não é só a elite, mas Ele também faz opção pelo pobre. Os pastores precisam “sair dos gabinetes” e ir onde as pessoas estão.

PERGUNTA: Você acredita que qualquer pessoa pode se aventurar em evangelizar uma tribo específica, como a dos roqueiros, por exemplo?

Flávio: Para trabalhar com uma tribo tem que conhecer o grupo. Se a galera sentir que você não conhece nada, eles não vão querer ouvir o que você tem a dizer. Eu, por exemplo, por onde passo as pessoas me reconhecem pelo estilo. Até porque eu era roqueiro antes da conversão e consegui levar toda a banda para Cristo. Creio que a igreja no geral deve ficar no apoio, mas tem certas áreas que só pessoas pode fazer.

PERGUNTA: E o contrário… como fazer com que o roqueiro convertido não vire um cristão segregado por conta de seu estereotipo?

Flávio: Particularmente temos um ministério chamado Planet Youth, na Igreja Batista da Lagoinha. É um galpão com uma infraestrutura própria para as tribos, todas elas. Tem palco onde as bandas ministram e não nos prendemos a estilo. O Rock não é tudo e a gente mostra que Jesus é tudo. Com isso, criamos nestas pessoas uma mentalidade de unidade. Tem o cara que joga capoeira e você vai estar com ele, mesmo sem saber jogar. Somos apenas um membro de um corpo onde a cabeça é Cristo. Mostramos a dualidade cultura e igreja, onde o soldado e o coronel estão juntos como irmãos, onde o pastor é servo de todos.

PERGUNTA: Deixe um recado para os usuários do portal.

Flávio: Que as pessoas venham a louvar e adorar a Deus onde estiverem. Se é um médico, que venha servi-Lo no trabalho, onde quer que seja. Que a glória de Deus venha resplandecer através das nossas vidas fora da Igreja, porque é lá que o bicho pega!